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O meu breve cantinho

O meu breve cantinho

Uma mulher num espaço masculino.

Feminista de raça pura me confesso, não acho que haja diferenças entre sexos, muito menos quando vangloriamos o sexo oposto a troco de nos inferiorizar.

Mas, confesso que acho imensa piada à distinção de espaços, maioritariamente praticados pelas senhoras das aldeias, as mesmas que nunca se atreveram a pisar um daqueles espaços que identificavam como sendo do seu marido ou dos seus filhos e até mesmo do seu pai. "Isto é um sitio para homens!" dizia a minha avó à porta de cada café, enquanto aguardava a chegada do meu avô, ouvira isto toda a minha infância quando se referia aos cafés, às oficinas ou aos estádios de futebol. Era interrogavel porque não poderia eu ir lá dentro, afinal de contas era tão divertido. Porque é que aquele espaço era dos homens e não poderia ser meu também?

 

Oh pah e que ironia da vida, o meu pai tem um café numa aldeia onde o ajudo tão agradavelmente e para ajudar à festa trabalho numa oficina.

Aqueles espaços "tão masculinos", que outrora seriam impensáveis ser frequentados por mulheres, são os mesmos espaços onde se libertam as melhores gargalhadas, onde os problemas ficam à porta, onde a socialização, a comunicação e a amizade se partilha. Saberiam elas, as mesmas senhoras que nunca se atreveram, que estes são os espaços que deveriam ser frequentados por todos?

Hoje, ainda bem verdinha, na casa dos meus 23, ainda sinto aqueles olhares estranhos. Quando vejo aquele senhor com os seus 60 e qualquer coisa a chegar quase que lhe consigo ler o pensamento através do olhar desconfiado. E sim, é verdade, não deixa de ter piada o que para mim é um emprego e para eles é um atrevimento da minha parte.

"Está uma mulher a invadir o nosso espaço!?" ...

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Sou licenciada ... e agora?!

Estava eu na minha Queima das Fitas, em pleno ano de 2013. Lembro-me daquele dia quente, em que estava eu toda trajada, a exibir, felicíssima, a minha cartola, a bengala e a pasta repleta de fitas com saudações e felicitações, em que cada uma transbordava o seu peso de orgulho em cada palavra que por ali andava estampada.

Vi no rosto dos meus pais o tanto ou maior orgulho que tinham em mim, como aquele que eu tinha, em ter chegado ao fim daquela etapa. 

No meio das emoções, da agitação e da alegria tive aquele momento de reflexão sobre o "amanhã", só pensava no sucesso que teria, na carreira que iria construir dali em diante, de quão importante eu seria para a sociedade, não estaria eu a terminar o curso de Serviço Social.

Ao longo daquele caminho, de três anos, pensei em todas as respostas e quão eu podia ser precisa para facilitar a sociedade de muitos dos seus encargos.

Abracei o meu curso com o maior amor que poderia ter, foquei-me em ser a melhor para mim e para os outros. Formei-me com o melhor que retirei de todos aqueles ensinamento diários, passei dias e noites sem sentir o conforto da minha cama para que aquele exame não me deixasse para trás.

Chorei todas as vezes que me despedi-a da minha família, ri em cada chegada a casa (ainda que poucas), gargalhei com todos os amigos que por mim se cruzaram, larguei a mão de muitos pensamentos de desistência e vivi ao máximo tudo aquilo que poderia ter desfrutado. 

Naquele dia, naquele regresso a casa. Sim, aquele que foi de vez! Percorri aqueles 360 km com um único objectivo em mente, na próxima semana eu vou começar a fazer aquilo que eu tanto gosto. Farei de mim uma excelente profissional e serei eu a crescer dia após dia. 

Hoje, dois anos depois, mais de 1000 currículos entregues, apenas uma entrevista conseguida e nem uma oportunidade encontrada.

Sinto a desilusão e a repulsa, sinto o medo e a tristeza, sinto o arrependimento de todo aquele esforço, de todos aqueles sonhos por realizar, de todos aqueles esforços, que hoje os vejo como se tivessem sido em vão.

A desilusão por vezes torna-se sufocante, o querer fazer e não poder, o querer estar e não nos deixar.

Sou licenciada, mas não sei para onde ir.

 

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